terça-feira, 26 de novembro de 2002

Uma versão do inferno

O inferno é um tema recorrente não apenas ao longo de toda a história da civilização, mas no próprio cotidiano ordinário. E ordinário, nesse caso, se presta para trocadilhos. “Ora, vá para o inferno” é uma expressão menos cabeluda do que “vá pra puta que pariu” ou mesmo “vai te fuder”. Mas pode ser mais ameaçadora na medida em que mexe com coisas menos prosaicas do que nossa mãe ou um caralho.

Não li O Inferno de Dante (aliás, há lacunas inomináveis em minha bibliografia clássica – o que me atormentou até os 30 anos, mas que agora me transmite uma certa piedade divina em ter me poupado de muita chatice). Mas não apenas a literatura e a arte em geral tentaram representar a figura de Satanás de todas as formas possíveis e impossíveis. O imaginário popular, insuflado pela necessidade da igreja de vender pacotes de salvação, encheram o dia-a-dia do pobre homem comum de pecados e demônios dos mais variados tipos. A versão podia ser romântica – manter a alma humana longe das tentações pecaminosas – mas a realidade era deplorável: manter o homem longe das tentações que pudessem afastá-lo da influência da igreja, que pudessem roubá-lo de seu poder.

Mas entre as várias representações do inferno das quais me lembro – labaredas aterradoras, figuras melífluas de garras, chifres e caudas pontiagudas arrastando o condenado para as entranhas da terra, torturas, sevícias, angústia, medo opressivo, dor, agonia sem fim – uma me é particularmente aterradora: vestiário masculino de academia. Não há nada tão nojento, asqueroso, fedido, repugnante, insalubre, anti-estético, degradante, opressor, deprimente, repulsivo do que cheiro de homem suado, cueca imunda, toalha mofada esquecida há dias no fundo de uma sacola, tênis chulezento, glande mal lavada.

Se na Itália dividida entre o domínio do Papa e a influência do Sagrado Império Romano houvessem vestiários masculinos tão dantescos (sem perdão pelo trocadilho) quanto os que existem hoje, os labirintos do inferno seriam muito mais tenebrosos do que Alighieri conseguiu descrever.

Kleber.

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